sexta-feira, junho 24, 2005

Está na moda ir ao Psiquiatra.

Pelo menos é o que parece, hoje em dia.

Depois de um acontecimento penoso sente-se dor. Não é nada de anormal, pelo contrário!, faz parte de um normalíssimo processo de luto que se tem que ultrapassar. No entanto, há quem viva tão desligado de si próprio, que só se dá conta de que tem coração quando este dói. E o que é que faz? Procura quem lhe receite uma qualquer substância mágica que lhe adormeça a dor.

É triste esta banalização dos anti-depressivos e afins que, não só não curam o mal, como não permitem que se passe pelas usuais etapas que levam à cura da ferida.

O mal maior, causador desta situação, é o facto de as pessoas não se conhecerem a si mesmas. Passam o dia no emprego, ao fim da tarde vão beber um copo com os amigos para esquecer as dores de cabeça do malfadado emprego e, quando à noite chegam a casa, ainda vão ver a quinta da celebridades, o jogo do Benfica (ou qualquer outro programa anti-cultural) para não ter que pensar nas ditas dores. O resultado de passarem tanto tempo com o cérebro "dormente", é esquecerem-se de quem são.

Talvez seja por isso que uma grande causa de depressão seja o final de um relacionamento. A pessoa vive em função do seu consorte, sem existência própria, e, num repente, vê-se sozinha. Ou melhor, acompanhada, mas por alguém que já não sabe quem é: ela própria. E o susto causado por esse sentimento de vazio descamba em depressão.

É natural que, quando perdemos algo ou alguém que estava intrinsecamente ligado à nossa vida, nos sintamos como que se nos tivessem retirado o chão debaixo dos pés. Isto porque somos entidades compostas, em parte, por "pedaços" dos nossos amigos e familiares. Mas temos que ser entidades constituídas, principalmente, por nós próprios. E para isso precisamos de interioridade.

É necessário saber estar. Única e simplesmente, estar. Em casa, num jardim, em qualquer lugar onde se possa estar uns momentos sozinho. Apenas a conversar consigo próprio, sem a preocupação das "compras-que-ainda-tenho-que-ir-fazer" e coisas que tais. Abstrair-se da agitação do mundo e virar-se para dentro, "arrumar o sótão".

Acredito que momentos desses, de quando em quando, contribuem em muito para saúde mental.

1 comentário:

Azevedo disse...

Sabe que essa moda tem aqui no Brasil também...

A moda de esquecermos que na vida o principal é a nossa experiência pessoal que pode ser compartilhada mas jamais vivida por outra pessoa, como você bem escreveu aqui.

Gostei muito do seu espaço, voltarei mais vezes.