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sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Revolutionary Road


Revolutionary Road, para mim, revelou-se sobretudo como um retrato honesto, despojado de saudosismo, do papel que a sociedade atribuia às mulheres, de classe média, da América dos anos 50. Numa época em que era esperado que a mulher atingisse a felicidade plena ao tornar-se esposa, mãe e dona de casa perfeita, numa bela casinha nos subúrbios, surge-nos uma mulher que aspira a algo diferente para a sua vida mas que, por força das circunstâncias, se vê presa numa existência que apenas sente como rotineira e solitária. Uma mulher incompreendida, inconformada, quiçá à frente da sua época, que procura encontrar uma forma de retomar as rédeas da sua vida e salvar o seu casamento.


quinta-feira, julho 10, 2008

Entrevista a Sheila Kitzinger

[Texto que descobri em pesquisas para o Relatório de Estágio. Ao que parece, saiu na Visão nº 588, de 9 de Junho de 2004.]

"QUEM É: Professora de enfermeiras obstetras, Sheila Kitzinger, 75 anos, corre mundo a falar da experiência do parto. Filha de uma parteira – que criou uma das primeiras clínicas de planeamento familiar, no Reino Unido –, percebeu, quando entrou para a faculdade, em Oxford, que toda a antropologia social andava à volta de visões masculinas.

CONDECORAÇÕES
Agraciada com a Ordem do Império Britânico, pelos seus serviços à educação sobre o parto.

LIVROS
Mais de 20. Três – Mães, A Experiência do Parto e Um Estudo Antropológico da Maternidade – estão disponíveis em português.

Polémica, esta antropóloga social conseguiu pôr o nascimento na lista de prioridades dos políticos.

Mãe cinco vezes e avó outras três, sempre de bebés nascidos em casa, Sheila Kitzinger não tem dúvidas de que o parto pode ser uma experiência altamente sexual. Para a antropóloga social, obrigar as mulheres a parir numa cama é «uma tortura» e a generalização da episiotomia (corte do períneo para evitar rasgões naturais, durante o parto) é a «mutilação genital feminina» do Ocidente. Assim fala a mulher referida pelos jornais britânicos como Mother of Birth (mãe do parto) do Reino Unido e graças a quem o seu país se tornou um dos mais avançados em termos de prática obstétrica.

Visão: O que fez para ser considerada a «mãe do parto», no Reino Unido?
SHEILA KITZINGER: No passado, o nascimento era considerado uma acto pessoal e biológico, tão antigo que não havia nada para dizer sobre ele. Eu fui a primeira pessoa a falar do parto como uma experiência. Não importa apenas se a mulher e o bebé estão vivos e de boa saúde, mas também como foi a experiência para a mãe. Isso tem implicações na forma como vai encarar a maternidade, a sua relação com o bebé e com o pai. Comecei a falar disto há 40 anos.

O que há de novo, na experiência do parto?
O nascimento tem a ver com a política, a identidade das mulheres, a forma como se relacionam com os homens e com os profissionais. Quando uma mulher dá à luz, é o parto dela, o bebé dela, o corpo dela. Devia poder escolher o que quer que aconteça. A grávida devia poder escolher uma parteira e só ter um obstetra quando há riscos envolvidos. São mais seguros os cuidados de uma parteira, desde a gravidez até ao nascimento.

Como é que o trabalho de uma parteira é mais seguro do que o de um obstetra?
As parteiras são especialistas em partos normais. Os obstetras, em partos anormais. Quando se trata o parto normal como se fosse anormal, acaba por se fazer dele anormal: intervém-se, administram-se drogas, estimula-se o útero para uma actividade artificial. E isso é perigoso.

Que perigos têm essas intervenções médicas?
Quando se estimula o útero de forma desnecessária, pode-se bloquear o fluxo sanguíneo na placenta, o que reduz o sangue oxigenado para o bebé. Além disso, as contracções são muito dolorosas e as mulheres não as conseguem controlar com relaxamento e respiração. Acabam por precisar de drogas contra a dor. Com essas drogas vêm outros efeitos secundários. É um ciclo. Uma intervenção leva a outra e acaba-se com um parto medicamente assistido.

A maioria das mulheres portuguesas não se queixa de assistência a mais, mas de ninguém as ter ajudado a ter um parto menos doloroso e mais rápido.
O que interessa não é ser mais rápido. Quanto mais rápido, mais doloroso. Se se queixam de muitas horas de trabalho de parto, é porque foram cedo demais para o hospital. Acredito muito no parto em casa. Há provas de que é seguro, quando não há gravidez de risco.

Como se define o risco?
Diabetes, bebés prematuros (menos de 37 semanas de gravidez), mulheres com hemorragias, tensão alta (pré-eclampsia ).

Esses são os riscos predeterminados. O problema pode surgir durante o parto, como o cordão umbilical à volta do pescoço…
Quando o cordão está no líquido amniótico, é como spaguetti no molho. Se se rompem as águas para acelerar o trabalho de parto artificialmente, o bebé desce muito rapidamente e aí o cordão, pode, de facto, estrangular o bebé. Mas, normalmente, o cordão flutua no líquido amniótico e pode estar à volta do pescoço do bebé sem que haja perigo.

E os bebés que não deram a volta para ficarem em posição fetal?
Sim, isso é um problema. Nesses casos, pode fazer-se uma cesariana, mas é melhor voltar o bebé com as mãos.

Como?
Chama-se inversão externa. Pode fazer-se depois das 37 semanas de gestação ou no início do trabalho de parto. Primeiro, massajam a mulher, de forma a que ela fique muito relaxada; a seguir, fazem-na balançar as ancas; e, depois, o médico empurra o bebé pelo rabo e roda-o, aos poucos, até que ele dê a volta, tudo com as mãos em cima da barriga da mãe. Os médicos deviam aprender a fazer isso.

Parece um método muito falível.
Há bebés que voltam à posição inicial, porque gostam mais de estar assim.

Nesse caso, a cesariana impõe-se?
Pode fazer-se cesariana ou um parto normal, desde que seja de pé. O bebé fica pendurado com as pernas de fora até que a cabeça saia devido ao peso do corpo.É outra forma de ter um bebé de rabo.

Esta solução seria mais perigosa?
Não. Depende do tamanho do bebé e do canal pélvico da mãe.

Para isso tudo, são precisas parteiras com muito boa formação.
Sim, claro. Neste momento, ainda não é assim em Portugal. Brevemente, terão três anos só para se especializarem em partos, o que deverá ser suficiente.

Ainda assim, todas essas alternativas parecem coisas arriscadas do passado, que já ninguém se atreve a fazer.
Vocês estão tão atrasados nestas coisas, que pensam assim. No Canadá e noutros países mais desenvolvidos, o trabalho das parteiras está a ser ressuscitado. Os obstetras abordam o nascimento do ponto de vista da patologia. Tratam todas as mulheres como uma ainda-não-doente.

Tendemos a pensar que o obstetra é mais especializado, mais sabedor do que uma parteira.
É verdade, eles são especialistas. Mas podem não saber absolutamente nada sobre partos normais. Alguns nunca viram um.

Será assim porque obstetra é sinónimo de hospitalização?
Sim. Mas, no Reino Unido, as parteiras fazem 70% dos partos nos hospitais. Aqui patologizam o nascimento. Abusam da episiotomia . Feita rotineiramente, é mutilação genital feminina. Falamos da mutilação genital em África, mas nós também a temos. Porquê fazer do nascimento uma cirurgia? Porquê fazer um corte? As mulheres ficam marcadas.

Marcadas, como?
Nos anos 70, fiz um estudo sobre a vivência das mulheres a quem foram feitas episiotomias . Havia muita investigação, mas todas sobre a forma como se faz o corte ou como se cose, nunca sobre os sentimentos das mulheres. Às vezes, o corte é apertado e a costura muito pequena, de forma que não podem ter relações a seguir. Uma episiotomia é um corte de terceiro grau, o que significa que vai até ao ânus. É como um velho lençol, se não se fizer um corte, é mais difícil de rasgar.

O princípio não é o mesmo para o corte natural?
Não. As investigações mostram que não se estende tanto como um corte artificial. Geralmente, a cura é mais fácil, depois de um rasgão natural. O ideal é o nascimento ser mais suave e vagaroso. Aí, gradualmente, os tecidos podem alargar-se, como as pétalas de uma flor ao sol.

Mas, dessa forma, não é mais moroso?
É, mas também mais agradável. Pode ser muito excitante. Isto são os nossos órgãos sexuais.

A versão do sofrimento do parto é muito mais frequente do que a do prazer e excitação.
Que triste! O nascimento é uma experiência psicossexual. O desejo de empurrar o bebé para fora pode ser fortemente sexual. Se a mulher seguir o seu próprio ritmo e estiver em contacto com o útero, pode ser muito excitante. Sim, há dor, mas ela é pouco importante, comparada com a emoção, desde que haja o ambiente certo.

O que é o ambiente certo para um nascimento?
Tem, sobretudo, a ver com as pessoas que estão à volta da mulher. Deitada na cama, fica numa posição terrível. Pior, só pendurada de cabeça para baixo. De pé, pode ser bom, ou de gatas, ou sentada na beira da cama, com as pernas bem abertas, ou mesmo de joelhos. Até o bebé sair, a mulher sente a necessidade de mexer as ancas, de fazer uma espécie de dança do nascimento, o que se torna impossível se for obrigada a estar na cama.

Se toda a gente acha que uma cama de hospital não é o melhor ambiente para se ter um bebé, porque é que continua a ser assim?
Está a mudar, mas não suficientemente depressa. Na Holanda, 30% das mulheres têm os filhos em casa e não é mais perigoso, desde que não haja riscos associados. Só é preciso uma ligação próxima ao hospital, o que deve ser tratado pela parteira. As coisas só mudarão se as mulheres derem as mãos às parteiras e trabalharem juntas, no mesmo sentido. Precisamos de profissionais muito boas para os partos serem mais seguros e positivos para as mulheres e as famílias. Hoje, em Inglaterra, muitas mães têm os bebés numa pequena piscina. A minha filha teve três filhos assim, em casa.

Na piscina, não há o perigo de o líquido amniótico sufocar a criança?
Faz falta mais investigação, porque é uma forma moderna de dar à luz. A grande vantagem de ter um bebé na água é que as margens da piscina impedem outras pessoas de estar em cima de nós. Nos hospitais, há sempre muita gente a dar ordens. Dizer à mulher para fazer força, no momento do parto, é como mandá-la ter um orgasmo quando está a ter relações. Não é preciso. Ela sabe muito bem o que tem a fazer.

É o instinto a funcionar?
É o nosso próprio mundo. Na piscina, somos livres de nos mexermos como queremos.O meu neto tinha 4 quilos e a mãe nem sequer teve um rasgão. Pôs-se de gatas e o bebé saiu por trás. Não foi preciso ninguém dizer-lhe nada. É muito triste que estas coisas não aconteçam em Portugal! Aqui, transformaram o parto numa tortura, sem necessidade nenhuma. As mulheres têm de fazer pressão para a mudança!

Em casa, não há monitorização do bebé. Como se pode fazer um parto em segurança?
As parteiras têm um pequeno scanner portátel que lhes permite ouvir o bebé, o que fazem de forma intermitente. Não é preciso estar a ouvir o bebé a toda a hora. As investigações mostram que utilizar o scanner é tão seguro como usar um aparelho mais complicado. Até é mais seguro.

Como?
Faz com que a cesariana seja menos frequente. Um dos problemas da maquinaria é ser interpretada de forma incorrecta pelos especialistas.

Tem cinco filhos. Como foram os seus partos?
Nasceram todos em casa. Tive um rasgão com o primeiro filho e precisei de pontos, mas fiquei bem, depois disso. O meu quarto filho nasceu muito depressa, em 40 minutos, por isso foi muito doloroso. No quinto, não tivemos tempo para chamar a parteira. O meu marido estava a filmar e só dizia: «Sorri! Sorri!» E foi o que fiz. Não quis pôr as minhas mãos entre as pernas, porque isso ia estragar-lhe o filme. Por isso, o bebé saiu sozinho. Eles podem fazer isto, quando não estão drogados.

A epidural tem essa interferência?
Em princípio, não. A epidural é boa para as mulheres que estejam com muitas dores e que a queiram. No meu tempo, não havia, mas eu teria odiado não sentir. O importante é sentir tudo. Se se aprender a fazer isso, através da respiração e relaxamento, é como uma contemplação com o nosso corpo. É como se o útero fosse o condutor e a mulher o maestro da orquestra.

Consegue-se dirigir essa orquestra, num hospital?
Temos de melhorar o ambiente nos hospitais. No Reino Unido, muita coisa está a mudar. A dor é pior, quando estamos presos e nos sentimos um bocado de carne na mesa. Não adianta dizer que não há dores, mas não tem de ser assim. O parto é um trabalho de músculos. Não é dor, mas há dor. Há cada vez mais mulheres a olhar para o nascimento como um trabalho do seu corpo, sem a ajuda do médico.

O que se observa hoje é exactamente o contrário. As mulheres não pedem partos mais naturais, mas, sim, mais cesarianas, para evitar a dor e o risco.
O que é um parto normal? Não é normal pedir a uma mulher para subir para uma cama e fazer o trabalho de parto deitada. O corpo é da mulher. A escolha deve ser dela. Acho que deve ter o direito de pedir uma cesariana. Mas porque é que elas querem cesarianas? Porque lhes é dito que é mais seguro para o bebé, acham que não vão ter dores, é-lhes garantido um obstetra e pensam que a vagina não será afectada e poderão ter sexo sem problemas.

Porque é que o parto acorda tantos medos?
Para muitas mulheres, a primeira experiência foi traumática. Tenho uma rede de apoio em caso de crise do parto, em que respondemos a pedidos de ajuda. Muitas mulheres sentem-se encurraladas, violadas. Isto é mais frequente quando há muita intervenção médica, em especial no que toca a induzir e a acelerar o trabalho de parto. Algumas têm pesadelos e flashbacks, numa segunda gravidez, e sofrem de stress pós-traumático.

Tem muitas guerras com os médicos?
Não. Nem sempre concordam comigo, mas não estou contra os obstetras. Claro que precisamos deles e alguns são muito bons."

quinta-feira, maio 08, 2008

Política: onde te situas?

http://www.politicalcompass.org/index


O meu resultado:

Economic Left/Right: -3.50
Social Libertarian/Authoritarian: -5.85

sexta-feira, novembro 09, 2007

Do ser-se adulto.

Esta tarde, no caminho para casa, e por razões que não têm qualquer interesse para este post, pus-me a pensar naquelas pessoas que parece que já não se lembram do que é isso de se ser criança. Indivíduos com quem, na relação, nunca sentimos a espontaneidade e vivacidade típicas de quem tem a infância dentro de si. Não acredito que não possuam realmente a tal criança que existe em todos nós, mas suspeito que a mantenham trancada “a sete chaves”, algures nos recônditos dos seus seres, juntando a isto um esforço em se apresentarem como uma coisa estranha e rígida que crêem significar “ser adulto”. E, então, são assim umas pessoas que parecem usar uma máscara de “pessoa-com-grandes-responsabilidades-e-preocupações”, nunca perdendo a pose, e reagindo com desdém a tudo o que lhes cheire a “infantilidade”.

Da minha parte, não acredito que um adulto seja isso, e este tipo de indivíduos lembra-me sempre adolescentes. Já que é característico destes últimos, essa necessidade de se distanciarem da criança que foram, de modo a que se possam construir como pessoas autónomas, com uma identidade diferenciada. O que não deixa de ser irónico… adultos que querem desesperadamente parecê-lo, mas que, no fundo, acabam por não se afastar muito da maneira de ser de jovens púberes.

Para terminar, deixo umas palavras do mestre que foi JOÃO DOS SANTOS:

“ (…)

João dos Santos – Pois, eu tenho uma ideia sobre isso. É que todos nós, adultos, passámos pela adolescência e a adolescência, de certa maneira, é a recusa da infantilidade, ou da infância. O trabalho que se faz na adolescência, o trabalho interno, mental, psíquico e até corporal, é muito a recusa de se ser criança, de se ser infantil. Depois há pessoas que recuperam mais ou menos a capacidade de ser infantil, ou de brincar, e há algumas que mantém, mesmo na adolescência, esse espírito infantil. Há várias maneiras de se ser infantil, há umas maneiras tolas, umas maneiras parvas – “parvo” em latim quer dizer “pequeno”…

João Sousa Monteiro – Ah sim?

J.S. – É, o que é engraçado… Há maneiras parvas de se ser infantil e há maneiras interessantes. Mas acho muito saudável que as pessoas guardem o que há de positivo na sua infância e sobretudo a capacidade de brincar. A maior parte dos adultos substitui a capacidade de brincar com as coisas, pela capacidade de brincar com as palavras e com as pessoas, com o fazer partidas, com o fazer jogos de palavras, com o contar histórias, com o contar anedotas... E o que o Pedro censurava nos adultos era eles falarem com as crianças como se falassem com outros adultos, esconderem as suas infantilidades, ou tomarem-se muito a sério.

J.S.M. – É verdade, é…

J.S. – É claro que um adulto pode recuperar, em parte pelo menos, a sua capacidade de ser infantil e de se relacionar com crianças, de pôr a sua criança interna em contacto com as outras crianças reais, que estão fora, mas para alguns isso está definitivamente excluído. Há pessoas que criam uma grande carapaça à volta do seu eu, da sua pessoa, da sua maneira de ser, pessoas muito rígidas, que se tornaram educadores muito rígidos. Às vezes são pessoas que tiveram uma grande dificuldade de se libertarem da sua própria infância ou de a esconder, e portanto exigem das crianças a mesma capacidade de esconder a sua infantilidade, de a recusar, de a rejeitar.

(…)”

In Se não sabe porque é que pergunta?, João dos Santos e João Sousa Monteiro.

quarta-feira, abril 25, 2007

Não há erro maior que deixar a tela em branco, por receio de se enganar. Não valem a pena os traços tímidos... de qualquer modo, na vida não existem borrachas. Mais vale desenhar a traços firmes e preencher com todas as tonalidades da emoção. Deixar marcas indeléveis, nos outros e em nós mesmos. Chegar ao fim sem um espacinho em branco, sem nada por viver, e ter a certeza de que não se será esquecido.
Morre lentamente quem não arrisca, sufocando nas incertezas do que poderia ter vindo a ser.

sábado, setembro 09, 2006

Manta de retalhos.

A vida é uma manta de retalhos, construída a cada passo que se dá. Cada experiência, cada pessoa com que se partilha o caminho, é um retalho acrescentado. Esta é uma costura feita de espontaneidade, em que não há um molde a seguir. Não pode ser pensada ou emendada.
Chegando ao fim do percurso, cada pessoa carrega consigo uma manta única. Feita de muitos ou poucos retalhos, mais ou menos colorida. Salpicada de lágrimas e de sangue, porque nem sempre a agulha perdoa a inexperiência. São mantas sem princípio, e nem mesmo um fim, pois confundem-se com as de outros, com que se partilham retalhos.

quarta-feira, maio 10, 2006

Da beleza.

Alturas houveram em que, devido a preocupações ridículas sobre gordurinhas, não me conseguia achar atraente. A isso decorria a baixa auto-estima, a teima em tentar seguir dietas impossíveis, etc.
Entretanto, cresci. Hoje sei que não existem corpos feios, mas apenas percepções negativas desses corpos. O truque é descobrir as características que sentimos como mais bonitas e procurar realçá-las. Quanto àquelas coxas rechonchudas, ou àquele rabiosque magricela, há sempre a possibilidade de os tentar melhorar com exercício físico e/ou dieta apropriada – tendo sempre presente que é impossível mudar a forma do nosso corpo –, mas o primeiro passo tem que ser a aceitação do que somos.
Se nos sentirmos bem connosco próprias, isso vai se reflectir no modo como andamos, como sorrimos, como nos relacionamos… Leva a que sejamos envolvidas por um halo de harmonia, de auto-confiança, que nos torna irresistíveis. Além disso, já que todos temos diferentes preferências e gostos, haverá sempre alguém, para nosso espanto, a sentir-se atraído exactamente por aquela característica que achávamos tão deselegante.
Claro que não acredito que a Beleza (seja a beleza de um corpo de proporções ideais, ou a beleza de quem se sente e se mostra deslumbrante) seja o factor determinante nas relações amorosas. Nada disso. É inegável que a atracção inicial, aquele despertar dos sentidos para uma outra pessoa, é fruto de uma primeira impressão favorável. Mas no que acredito firmemente é que, para existir a disponibilidade emocional necessária ao estabelecimento de uma ligação, é vital a aceitação do que somos. Só quando nos aceitamos como seres lindos, por dentro e por fora (mesmo com todas as falhas e imperfeições inerentes ao ser-se Humano), é que podemos pretender aceitar o todo que constitui o outro.
Para mim, no que toca ao interior, esta aceitação não deve ser uma mera admissão passiva dos defeitos. Deve haver uma procura activa de aperfeiçoamento, de modo constituirmo-nos como uma unidade harmoniosa, em sintonia com o Universo.

terça-feira, maio 09, 2006

Sabias?

Em muitos idiomas europeus, a palavra noite é formada pela letra n seguida do número 8. Este último, deitado, simboliza o infinito em linguagem matemática.

Exemplificação
Português: noite = n + oito
Inglês: night = n + eight
Alemão: nacht = n + acht
Espanhol: noche = n + ocho
Francês: nuit = n + huit
Italiano : notte = n + otto

Porquê esta estreita relação entre a noite e o infinito? Possivelmente, para mim, porque é de noite, perante um céu estrelado, que conseguimos ter a mais leve noção do que é o Infinito.

quinta-feira, março 23, 2006

Onde estão o Sol, as flores, os passarinhos...? Será que se esqueceram de chamar a Primavera?!

Não é que pisar poças de água, lutar contra o vento munida de um chapéu "dos trezentos", ser salpicada de água enlameada pelos carros que passam, etc., não sejam experiências engraçadas! Mas já tende a aborrecer um bocadinho...

Tenho saudades do primeiro dia de Verão. Não é aquele dia, o "oficial", é o outro... em que acordo com uma sensação estranha: não faço cara feia quando o despertador toca, levanto-me de um salto e toda eu sou um sorriso. Parece que os pássaros cantam mais alto e, ao abrir as persianas, tudo tem uma luz diferente. Nesse dia abro a janela e sinto-o, aquele cheiro a Verão. Hum... Adoro!

domingo, março 05, 2006

A amizade de alguém é algo inestimável. É leviandade permitir que o tempo a dilua.
O passado é uma lição. O futuro, um caminho a percorrer. O presente, esse, é uma dádiva... talvez por isso mesmo lhe chamemos presente.

[Vi uma frase do género num qualquer site e não resisti a reescrevê-la à minha maneira]

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Touradas.

Há uma grande polémica à volta das touradas de morte. Existem mesmo vários movimentos anti-touradas de morte, o que apoio inteiramente! Mas eu não sou contra os touros de morte, sou contra as touradas em geral! Poderia haver diversão mais sádica?! Para manter elevada a moral do povo, vale tudo!...
Dizem que as touradas são tradição... E desde quando é que a tradição anda a par com a evolução das sociedades? Sendo assim, porque não lançar na arena uns quantos cristãos e um leão esfomeado...? Ah, e diz-se que é uma arte, não é? Sofrimento animal... sim, essa é, de facto, a definição de arte!...
A tourada é um manifesto à ignorância e crueldade do Homem. É vergonhoso que, num país (supostamente) evoluído, haja quem encontre beleza e diversão num espectáculo degradante e embrutecedor como este:

Image Hosted by ImageShack.us
Imagem de forcados a imobilizar o touro, depois de este já estar exausto e ferido.


Curiosamente, ao que parece, Portugal já foi um país livre de touradas. Em 1836, no Reinado de D. Maria II, o Ministro do Reino - Passos Manuel - promulgou um Decreto que proibia as touradas em todo país (Diário do Governo nº 229, de 1836): "Considerando que as corridas de touros são um divertimento bárbaro e impróprio de Nações civilizadas, bem assim que semelhantes espectáculos servem unicamente para habituar os homens ao crime e à ferocidade, e desejando eu remover todas as causas que possam impedir ou retardar o aperfeiçoamento moral da Nação Portuguesa, hei por bem decretar que de hora em diante fiquem proibidas em todo o Reino as corridas de touros."


"A grandeza de uma nação pode ser avaliada pela forma como trata os seus animais."
Mahatma Gandhi

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Nada mais agradável

do que uma boa conversa, acompanhada de chá para dois.

sábado, novembro 19, 2005

Sabem aqueles avisos, nas portas de alguns prédios, que dizem algo como: "Fechar a porta, se faz favor"? Há pessoas a quem dá vontade de colocar um na testa que diga "É favor abrir a mente". Com tanta poeira na cabeça, se não abrem a porta para arejar, ainda morrem sufocadas na própria obtusidade.

"If you never change your mind, why have one?"
Edward de Bono

sexta-feira, novembro 04, 2005

Conversa de café.

O Universo é infinito. Não tem princípio ou fim. Mas teve um momento inicial? Se sim, antes havia o quê? O Nada? Mas o Nada não dá origem a nada. Ou seja, se antes era o Nada, então agora também só "existia" Nada porque não há geração espontânea. Então isso quer dizer que o Universo surgiu de alguma coisa. E essa Alguma Coisa, surgiu do quê?
Ou então, por outro lado, o Universo sempre existiu, sempre foi igual a si mesmo. Mas isso não faz sentido, porque o Universo é dinâmico.
A Origem do Universo... a eterna questão!

terça-feira, novembro 01, 2005

Dia de Todos os Santos

Hoje, dia 1 de Novembro, comemora-se o Dia de Todos os Santos. Dia em que, por tradição, se visita as sepulturas dos entes queridos.
É também neste dia que, logo pela manhã, onde ainda se conserva o costume, se juntam grupos de crianças que, de porta em porta, vão pedir pela alma dos que já faleceram. Nas mãos levam uma bolsinha de pano e, em resposta ao pedido, as pessoas dão o que podem, tal como dinheiro ou guloseimas.
Uma tradição que faz parte da nossa cultura cristã e que não vejo mal na sua perpetuação. No entanto, já não partilho desta opinião no que toca a dias feriados importados de outras culturas, tais como o Halloween. Mas o que é que se há-se fazer, deve ser isto a tal globalização...

quarta-feira, outubro 19, 2005

Decididamente, a ler.

O quê? A crítica de João Pedro George (do blog Esplanar) à pseudo-literatura (literatura "light", como gostam de lhe chamar...) de Margarida Rebelo Pinto.
Para terem uma ideia:
"(...) Margarida Rebelo Pinto repete-se imoderadamente, copia frases de uns para outros livros, utiliza por vezes citações de escritores sem lhes atribuir a origem, tem deslizes de ortografia e comete erros gramaticais, as personagens, as situações, os temas e a estrutura narrativa são sempre os mesmos, as vidas que relata são homogéneas e monótonas, há incongruências catastróficas no vocabulário dos narradores, retirando-lhes toda a credibilidade, as representações dos homens e das mulheres são padronizadas, estereotipadas e simplistas, a escrita toca as raias do mau gosto e do anedótico, o estilo é uniforme e preguiçoso. Tudo considerado, livros deploráveis, falhados e vulgares. Não é fácil afirmar estas coisas, no início senti-me inclusivamente desapontado. É que o fenómeno Margarida Rebelo Pinto era-me simpático. Quando a comecei a ler até estava predisposto a gostar dela. (...)"
A partir daqui o autor desenvolve os seus argumentos, com uma mão-cheia de exemplos.
Pessoalmente, só li o primeiro livro de Margarida Rebelo Pinto; não fez minimamente o meu género e, como tal, não tenciono perder mais nenhuma hora a ler os seguintes (sim, porque a leitura de escrita tão básica não leva mais tempo do que isso). Assim, não posso confirmar a totalidade do que J.P.George afirma no seu texto, mas adorei a crítica e recomendo vivamente.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Ser feliz:

é saber saborear a vida... com todos os 5 sentidos!

sexta-feira, outubro 14, 2005

Apenas quando as pequenas coisas que tomamos como certas nos falham, é que entendemos a sua magnitude na nossa vida...

quarta-feira, outubro 12, 2005

Da individualidade.

Não se deve apenas "ir atrás do rebanho", relegando os próprios gostos e opiniões. Mas também não faz sentido limitar o comportamento só para não ir atrás desse rebanho. Há que fazer sempre aquilo em que se acredita, e isso só por si já nos torna únicos.
Num registo muito simplista, é ridículo ouvir apenas a música que "está na moda", para se ser igual, mas é igualmente ridículo ouvir apenas a "que não está na moda", para se ser diferente. Qualquer uma das atitudes demonstra inflexibilidade e tacanhez de pensamento. Há que "ouvir todo o tipo de música" para saber o que é que vale a pena seguir e, a partir daí, manifestar a diferença que está dentro de cada um.