sexta-feira, novembro 09, 2007

Do ser-se adulto.

Esta tarde, no caminho para casa, e por razões que não têm qualquer interesse para este post, pus-me a pensar naquelas pessoas que parece que já não se lembram do que é isso de se ser criança. Indivíduos com quem, na relação, nunca sentimos a espontaneidade e vivacidade típicas de quem tem a infância dentro de si. Não acredito que não possuam realmente a tal criança que existe em todos nós, mas suspeito que a mantenham trancada “a sete chaves”, algures nos recônditos dos seus seres, juntando a isto um esforço em se apresentarem como uma coisa estranha e rígida que crêem significar “ser adulto”. E, então, são assim umas pessoas que parecem usar uma máscara de “pessoa-com-grandes-responsabilidades-e-preocupações”, nunca perdendo a pose, e reagindo com desdém a tudo o que lhes cheire a “infantilidade”.

Da minha parte, não acredito que um adulto seja isso, e este tipo de indivíduos lembra-me sempre adolescentes. Já que é característico destes últimos, essa necessidade de se distanciarem da criança que foram, de modo a que se possam construir como pessoas autónomas, com uma identidade diferenciada. O que não deixa de ser irónico… adultos que querem desesperadamente parecê-lo, mas que, no fundo, acabam por não se afastar muito da maneira de ser de jovens púberes.

Para terminar, deixo umas palavras do mestre que foi JOÃO DOS SANTOS:

“ (…)

João dos Santos – Pois, eu tenho uma ideia sobre isso. É que todos nós, adultos, passámos pela adolescência e a adolescência, de certa maneira, é a recusa da infantilidade, ou da infância. O trabalho que se faz na adolescência, o trabalho interno, mental, psíquico e até corporal, é muito a recusa de se ser criança, de se ser infantil. Depois há pessoas que recuperam mais ou menos a capacidade de ser infantil, ou de brincar, e há algumas que mantém, mesmo na adolescência, esse espírito infantil. Há várias maneiras de se ser infantil, há umas maneiras tolas, umas maneiras parvas – “parvo” em latim quer dizer “pequeno”…

João Sousa Monteiro – Ah sim?

J.S. – É, o que é engraçado… Há maneiras parvas de se ser infantil e há maneiras interessantes. Mas acho muito saudável que as pessoas guardem o que há de positivo na sua infância e sobretudo a capacidade de brincar. A maior parte dos adultos substitui a capacidade de brincar com as coisas, pela capacidade de brincar com as palavras e com as pessoas, com o fazer partidas, com o fazer jogos de palavras, com o contar histórias, com o contar anedotas... E o que o Pedro censurava nos adultos era eles falarem com as crianças como se falassem com outros adultos, esconderem as suas infantilidades, ou tomarem-se muito a sério.

J.S.M. – É verdade, é…

J.S. – É claro que um adulto pode recuperar, em parte pelo menos, a sua capacidade de ser infantil e de se relacionar com crianças, de pôr a sua criança interna em contacto com as outras crianças reais, que estão fora, mas para alguns isso está definitivamente excluído. Há pessoas que criam uma grande carapaça à volta do seu eu, da sua pessoa, da sua maneira de ser, pessoas muito rígidas, que se tornaram educadores muito rígidos. Às vezes são pessoas que tiveram uma grande dificuldade de se libertarem da sua própria infância ou de a esconder, e portanto exigem das crianças a mesma capacidade de esconder a sua infantilidade, de a recusar, de a rejeitar.

(…)”

In Se não sabe porque é que pergunta?, João dos Santos e João Sousa Monteiro.

3 comentários:

J. Edwards disse...

Creio que na maioria das pessoas, tudo nao passará de um mal-entendido interior. Já fui vitima de acusações dessas pessoalmente e admito que por vezes, apenas por vezes me manifeste demasiado duro comigo mesmo , isso como que num efeito borboleta ira cair de rompante na consciencia de terceiros. Mas nao é preciso sequer ter uma luz de psicologia sobre o assunto Teresa, apenas que a vida à mediade que vão subindo as responsabilidades e os desafios se tornam mais rigidos e ásperos para a criança que temos dentro de nós poder aguentar. Acredite Teresa, que tudo isso nao passa nem mesmo de um escape, mas sim de protecção , proteger a criança que temos dentro de nós para que poderemos livremente dá-la a comunicar com quem mais amamos. E toda a gente tem uma criança dentro dela, e se você sabe disso, como que um segredo, está na suas mãos a "responsabilidade" e a amabilidade de mostrar ao dono dessa criança que a possui dentro dele/a. Consegue isso ? Chamasse isso de magia, chamam-lhe amizade, chamam-lhe amor. Nao sei, nao interessa. Só sei que para muitos, essa criança é um tesouro guardado, e como tesouro que é merece o seu especial cuidado, por isso se protege, se fecha essa criança a sete chaves, parecendo que tão somente ela nao exista. Está-se apenas a proteger.
Um bom f.d.s pa si Teresa

J. Edwards disse...

a propósito, cai no seu espaço de paraquedas quando procurava algo sobre este filme "The girl in the cafe", um filme impressionante em que aqui se vê uma personagem masculina que tenta ser "adulta" como sua aparencia indica, e uma personagem feminina que é nobremente adulta e um certinha de nada pesada, pois sua experiencia de vida (como o facto de ter sido presa) a marcou. Lá lhe calhou Teresa certas vezes ser-se didicil mostrar a cirnaça que existe dentro de nós a certas pessoas, mas acredite que se insistir um pouco não vai haver ninguem de certeza que poderá resistir a esse apelo, pois no fundo no fundo ninguem é indiferente. É preciso tbem viver a vida e disfrutá-la com alguma responsabilidade, nao se vá ofender ou magoar nao intencionalmente outros que tbem tem o direito ao mesmo. visite o meu espaço se tiver algum tempo livre. bom São matinho!
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Javad disse...

hiiiiiiii
i dont't understand this language .(sad)
anyway peace be with you .
good luck
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